Era uma galinha de domingo. Ainda viva, pois era 9 horas da manhã.
Parecia calma, por isto foi uma surpresa quando ela voou até o terraço, de lá até o quintal do vizinho e depois até o telhado. A cozinheira gritou chamando a família e o dono da casa resolveu vestir um calção de banho e seguir a galinha, assim faria exercício ao mesmo tempo em que resgataria seu almoço.
A perseguição ficou intensa, de telhado em telhado percorreram um quarteirão. As vezes enquanto ele demorava um pouco mais, ela tinha tempo de parar um pouco e se refazer. Se sentia tão livre! O que fazia dela um ser? Ela era um ser. Certo que ninguém poderia contar com ela para nada, assim como nem ela mesma poderia contar com ela.
Por fim, numa de suas paradas para descansar, o homem a alcançou e levou-a de volta a cozinha.
Ainda tonta, sacudiu-se de por pura afobação botou um ovo. Sentou-se sobre ele e lá ficou, até a menina, que estava assistindo a tudo, gritou para a mãe que a galinha tinha botado um ovo e que, portanto, queria o bem de todos.
Os três ficaram ali, olhando para a galinha e foi então que o pai decidiu que se a matassem ele jamais comeria uma galinha de novo. A filha concordou.
Sem saber da vida que lhe deram, a galinha passou a morar com a família, tornando-se a rainha da casa. Continuou entre terraço e cozinha e quando todos a esqueciam, ela se enchia de uma pequena coragem e circulava pelo ladrilho. Raramente se lembrava daquele dia em que encheu os pulmões de ar e voou. Nestes dias ela não cantaria, mesmo que pudesse, mas ficaria muito mais contente.
Até que um dia mataram-na e comeram-na.